A cada dia a mais que eu vivo neste planeta, chego às conclusões mais absurdas possíveis...
Ser real é abrir-se. Ser sincero e honesto é dar a cara à tapas.
Cheguei à conclusão de que viver de verdade possui conseqüências letais e injustas.
Ser de verdade é doloroso e sem volta.
Acredito que aqueles que se dispõem a isso se tornam frágeis e quebradiços na proporção da sua veracidade...
As pessoas que intentam ser de verdade têm frágeis rostos de cristal. Rostos quebradiços e inocentes. Rostos expostos a um mundo injusto e cruel.
Apesar de tudo não existe outra forma... É só esta. Cada um pode enveredar-se por esta selva, pode usar a máscara que quiser, até a altura que quiser, mas ninguém poderá ser o que é de verdade sem expor-se, sem se tornar frágil e quebradiço...
Apesar de tudo, sei, ainda sei que vale a pena...
"Tudo isso aconteceu...
A cidade antiga, de ruas de pedra e pessoas de vidro sempre foi o meu esconderijo. O sino da igreja nova tinha acabado de badalar três horas da manhã. Eu ajeitei o meu coração tal qual ajeitei o meu corpo e saí... As pedras da rua são desajeitadas de andar, mas me trazem de encontro a quem sou. Aos tropeços e bêbado de sono eu caminhei por elas, tentando manter o máximo de contato e tentando entregar-me ao todo, todas as impurezas de meu corpo ficam naquelas pedras... Sempre... Atravessei a praça na escuridão. Meu coração estremeceu quando levantei os olhos para a igreja. As luzes do natal passado, já apagadas, desciam sobre mim em caudas até a base. Debaixo disso, eu... A última imagem que guardei na alma foi a da igreja, com luzes apagadas pendendo no alto. Me lembro que na primeira vez que passei por ali, na luz do dia, pensei: "seria tão melhor que as luzes continuassem acesas mesmo depois do ano novo..." Mas naquela hora, na noite mais escura, na solidão mais calma, pensei que não importa a intensidade das luzes, não importa nem mesmo se elas estarão sempre apagadas para nós... O importante é sentir nossa alma brilhar de tal forma que ficamos cegos com sua claridade, mesmo numa noite tão escura..."

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